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Teologia da Libertação e Economia da Libertação
1492-1992: 500 anos de matança, ocupação e exploração da América Latina
Contribuição de Sílvio Gesell para uma conversão e reconciliação entre Norte e Sul
Werner Onken - Tradução: Glaucia Grenzer, Margit Greve e Rudi Braatz


Tópicos:
1. A conquista continua
2. A Teologia da Libertação e a crítica marxista ao capitalismo
3. Precursor de uma economia de mercado sem capitalismo
4. Compatibilidade da Teologia da Libertação e das reformas agrária e monetária com a economia da libertação
5. A relação peculiar de Silvio Gesell com a América Latina
6. Após 500 anos de super e subdesenvolvimento: reunificação do Norte e Sul para um equilíbrio global


1.  A conquista continua

‚ÄúNeste ano, celebra-se pela q√ľinquag√©sima (500) vez o ‚Äědescobrimento‚ÄĚ da Am√©rica por Crist√≥v√£o Colombo. Delfin Tenesca, um √≠ndio equatoriano opina a respeito: ‚ÄěOs Governos falam de 500 anos de encontro entre dois Mundos; as Igrejas pregam 500 anos de Evangeliza√ß√£o; n√≥s, os √≠ndios, celebramos 500 anos de resist√™ncia. Tudo depende do ponto de vista do observador da situa√ß√£o [1].

Em 1492, os europeus come√ßaram a saquear a Am√©rica do Sul, Am√©rica Central, a √Āfrica e a √Āsia. Na√ß√Ķes foram saqueadas e as riquezas das terras roubadas. Milh√Ķes de √≠ndios foram assassinados ou foram v√≠timas de doen√ßas t√≠picas do mundo europeu. Povos e culturas inteiras foram exterminados. Gustavo Gutierrez sup√Ķe que aproximadamente 57 milh√Ķes de √≠ndios viviam na Am√©rica Latina antes da chegada dos europeus. Num per√≠odo de 80 anos os √≠ndios foram reduzidos √° uma popula√ß√£o de apenas 9 milh√Ķes. Tzveten Todorov estima que o n√ļmero de v√≠timas ind√≠genas tenha sido ainda maior [2]. Os genoc√≠dios praticados pelos conquistadores desde o s√©culo XVI, sob o pretexto da evangeliza√ß√£o dos povos pag√£os, tem rela√ß√£o direta com os grandes genoc√≠dios do s√©culo XX: o holocausto dos judeus durante o nazismo e o terror Gulag por parte do comunismo.

Aquilo que os europeus roubaram em terras distantes se tornou, num determinado sentido, o capital inicial para a ascens√£o do capitalismo moderno e o surgimento de estruturas econ√īmicas mundiais, que asseguram a supremacia mundial do capital monet√°rio dos europeus ricos e dos norte-americanos. Durante 500 anos os poderosos souberam manipular estas terras com sua l√≥gica da utiliza√ß√£o do capital a seu favor e com os altos juros. Mesmo depois da liberta√ß√£o dos povos latino-americanos, que sa√≠ram do colonialismo para a independ√™ncia nacional, ainda persistem depend√™ncias neocoloniais dentro dos pr√≥prios pa√≠ses Sob a forma de estruturas feudais, tais como as d√≠vidas e os juros obrigat√≥rios pagos aos pa√≠ses estrangeiros. Os juros pagos pelos pa√≠ses subdesenvolvidos do sul aos pa√≠ses ricos do norte s√£o bem mais altos que o reembolso volunt√°rio da Europa e dos Estados Unidos em forma de ‚Äúajuda para o desenvolvimento‚ÄĚ.

Em 1492, para os povos do terceiro mundo iniciou-se uma ‚ÄúVia Sacra‚ÄĚ do sofrimento que continua at√© hoje. Leonardo Boff chama de ‚ÄúSexta-feira Santa que j√° perdura por 500 anos e que n√£o tem perspectiva de ressurrei√ß√£o‚ÄĚ. H√° motivos para comemorar 500 anos de matan√ßa, de roubo, de opress√£o e expans√£o monet√°ria? O ano de 1992 deveria ser um ano de invers√£o e de reflex√£o sobre como superar a conquista.

2.  A Teologia da Liberta√ß√£o e a cr√≠tica marxista ao capitalismo    [T√≥picos]

A Teologia da Liberta√ß√£o Latino-Americana deu um impulso essencial √† esta reflex√£o ao romper a tradicional alian√ßa entre Igreja e o Estado. Durante muitos s√©culos o Estado era respons√°vel pelas coisas reais da vida, enquanto a Igreja tinha como tarefa o zelo da vida espiritual. O fato da Igreja n√£o ter interferido nas coisas reais da vida nada mais significava do que ser partid√°ria dos poderosos. Os Te√≥logos da Liberta√ß√£o superaram esta distin√ß√£o entre o mundo material e espiritual e entre terra e c√©u. Hoje a explora√ß√£o e a opress√£o s√£o consideradas ‚Äúestruturas pecaminosas‚ÄĚ e a Igreja vem reconhecendo sua miss√£o prof√©tica de lutar ao lado dos pobres contra os pecados da explora√ß√£o da terra e do homem. A hist√≥ria profana e a hist√≥ria da salva√ß√£o se fundiram numa √ļnica unidade [3].

Sob grandes perigos e com v√≠timas ¬¨‚Äď recorda-se o assassinato a sangue-frio do arcebispo Oscar Romero (1980) e o massacre cruel em El Salvador, onde em 1989, morreram o Padre Ign√°cio Ellacuria e muitos outros jesu√≠tas - os Te√≥logos da Liberta√ß√£o latino-americanos reconheceram a forma europ√©ia da mensagem crist√£ como um evangelho pervertido do poder pol√≠tico dos ricos. Estes te√≥logos renovaram o cristianismo como o evangelho dos pobres. Medellin (1968) e Puebla (1979) foram pedras fundamentais neste caminho de reflex√£o e mudan√ßa, que teve repercuss√£o positiva sobre a teologia europ√©ia, e que n√£o pode mais retroceder.

Por um lado, a Teologia da Libertação latino-americana superou a deformação do cristianismo, por outro lado, importou o marxismo europeu como instrumento conceitual para a explicação teórica das estruturas dominantes, e também como manual de ação para mudanças sociais [4]. Provavelmente, isto tenha sido favorecido pelo fato do marxismo, justo naquela época, experimentar um renascimento na Europa Ocidental. Outros críticos ao capitalismo eram até então quase que totalmente desconhecidos. O grande perigo da relação entre a Teologia da Libertação e o Marxismo persiste na traição à esperança dos pobres da América Latina, bem como a traição à esperança dos pobres da Europa Oriental. O comunismo não é capaz de libertar o mundo das estruturas pecaminosas, pois a teoria de Marx contém erros que inevitavelmente conduzem à prática hostil ao homem e à natureza.

Marx n√£o reconheceu o poder do dinheiro. Para ele o dinheiro era somente equivalente √† mercadoria. Deste modo, considerou a propriedade privada dos meios de produ√ß√£o como a raiz da explora√ß√£o e opress√£o. Considerou os juros produzidos pelo dinheiro como uma parte subordinada √† mais-valia industrial, cuja distribui√ß√£o se faria pelos capitalistas entre si. A conseq√ľ√™ncia dessa an√°lise err√īnea foi a estatiza√ß√£o dos meios de produ√ß√£o, tornando as na√ß√Ķes da Europa Oriental escravas de uma burocracia onipotente do estado e do partido. A ditadura pol√≠tica e o planejamento centralizado da economia destru√≠ram a liberdade humana e n√£o satisfizeram as necessidades b√°sicas do homem. Isto se enquadra na concep√ß√£o materialista que Marx tinha do mundo, a qual nega a dignidade do homem e est√° em contradi√ß√£o com os valores fundamentais do cristianismo.

A hist√≥ria dos povos da Europa Oriental tem mostrado que, atrav√©s de um grande sofrimento, a aboli√ß√£o do mercado conduz √† total falta de liberdade. Assim mesmo, devem 500 anos de conquista ser sucedidos por uma nova tirania comunista na Am√©rica Latina, para que um dia o capitalismo volte novamente como o vencedor na luta dos sistemas, podendo colonizar novamente o subcontinente, como atualmente acontece na Europa Oriental? Tal destino tr√°gico poderia ser evitado se os te√≥logos da liberta√ß√£o e os ainda pouco conhecidos cr√≠ticos n√£o marxistas do capitalismo se descobrissem reciprocamente. Desse encontro poderia resultar a perspectiva de uma economia p√≥s capitalista de mercado liberta do poder latifundi√°rio e do dinheiro produtor de juros, em que todos os homens tivessem os mesmos direitos de acesso √† terra e ao justo interc√Ęmbio de servi√ßos. Essa perspectiva poderia proteger a Teologia da Liberta√ß√£o no sentido de que n√£o se perdesse num novo Gulag, e ao mesmo tempo isto n√£o significaria uma despolitiza√ß√£o ou arranjo com as rela√ß√Ķes de poder dominante nem tampouco significaria auto-limita√ß√£o s√≥cio-pol√≠tica e caritativa de minimiza√ß√£o dos efeitos negativos do mercado capitalista. O impulso libertador contido na op√ß√£o pelos pobres continuaria sendo dirigido contra os poderosos da economia, da pol√≠tica e da Igreja. Assim, a Teoria da Liberta√ß√£o poderia ser aceita tamb√©m por aquelas pessoas que reconhecem as estruturas pecaminosas existentes, por√©m distanciam-se delas porque temem as conseq√ľ√™ncias comunistas da teoria marxista do capital.

3.  Precursor de uma economia de mercado sem capitalismo        [T√≥picos]

J√° em meados do s√©culo XX come√ßou a busca de uma alternativa ao capitalismo e ao comunismo. O reformador social franc√™s Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) investigou as raz√Ķes pelas quais, depois do absolutismo, n√£o surgiu uma sociedade sem dom√≠nio. Ele responsabilizou a apropria√ß√£o privada da terra e o poder do dinheiro que produz juros, pela ascens√£o da burguesia como nova classe dominante. Considerava o arrendamento da terra como ‚Äúsaque e roubo‚ÄĚ e o juro como ‚Äúagiotagem‚ÄĚ, os quais se propagam como c√Ęncer  [5].  O arrendamento da terra, os juros e os juros sobre juros fizeram com que a burguesia acumulasse grande quantidade de dinheiro e de capital real, e possibilitaram fazer do Estado e da Igreja instrumentos de seu dom√≠nio sobre os pobres.

Proudhon n√£o via no comunismo uma alternativa desej√°vel para as estruturas injustas da economia de mercado capitalista, pois de h√° muito previa seu car√°ter desp√≥tico [6]. Em vez disso, queria estabelecer a ‚Äúigualdade de condi√ß√Ķes‚ÄĚ, ou seja, liberar o mercado dos privil√©gios da posse da terra e do capital. A terra deveria ser propriedade comum e o cr√©dito sem juros deveria prover a circula√ß√£o do dinheiro sem problemas. Para Proudhon, a reciprocidade  do dar e do tomar era a ‚Äúf√≥rmula de justi√ßa‚ÄĚ e o pressuposto para a descentraliza√ß√£o dos meios de produ√ß√£o. A justa distribui√ß√£o de rendas deveria colocar o homem em situa√ß√£o tal que pudesse ter meios  de produ√ß√£o pr√≥prios, ou seja, associar-se livremente em cooperativas [7].

A cr√≠tica de Proudhon ao centralismo de estado hegeliano-marxista foi a causa pela qual Marx o combateu com esc√°rnio e √≥dio, qualificando-o de socialista ‚Äúpequeno burgu√™s‚ÄĚ. Este conseguiu ganhar a supremacia intelectual sobre aquele no movimento trabalhista e conduziu os rumos da hist√≥ria na dire√ß√£o de formas mistas social-democr√°ticas: de mercado capitalista e governo geral estatal. Mas a corrente de id√©ias do socialismo liberal de Proudhon permaneceu viva nas obras de Gustav Landauer (1870-1919), Franz Oppenheimer (1864-1943), Silvio Gesell (1862-1930) e de Rudolf Steiner (1861-1925).

Antes mesmo da revolu√ß√£o russa o fil√≥sofo cultural, Gustav Landauer, havia criticado profundamente a interpreta√ß√£o hist√≥rica da filosofia marxista, segundo a qual o crescimento das for√ßas da produ√ß√£o transformariam automaticamente o capitalismo em comunismo. Enquanto Marx considerava a concentra√ß√£o do capital nas sociedades por a√ß√Ķes como uma pr√©-fase hist√≥rica da estatiza√ß√£o dos meios de produ√ß√£o. Landauer condenava tanto as formas de concentra√ß√£o do capital privado como as estatais. Ele confrontava o Estado Totalit√°rio dos marxistas com sua concep√ß√£o de uni√£o volunt√°ria de comunidades econ√īmicas independentemente governadas e de interc√Ęmbios justos como forma  fundamental da cultura socialista. Da mesma forma que  Proudhon, Landauer, foi um te√≥rico do federalismo pol√≠tico [8].

O m√©dico e sociol√≥go Franz Oppenheimer preocupou-se muito em precisar as defini√ß√Ķes dos conceitos ‚Äúeconomia de mercado‚ÄĚ e ‚Äúcapitalismo‚ÄĚ para fazer uma distin√ß√£o mais precisa de ambos, que eram tidos como sin√īnimos. Para ele o respons√°vel pelos problemas sociais n√£o era nem o mercado, nem a concorr√™ncia e tampouco a propriedade privada dos meios de produ√ß√£o, mas sim a limita√ß√£o da concorr√™ncia pelos monop√≥lios opostos ao mercado livre, isto √©, por estruturas de poder privadas e estatais, principalmente pelo monop√≥lio da propriedade privada da terra. A terra n√£o foi feita por m√£os humanas e n√£o se pode multiplic√°-la por meio do trabalho humano, por isso n√£o poderia ter o mesmo tratamento como o de outra mercadoria. Oppenheimer queria, sobretudo, suprimir o latif√ļndio e formar cooperativas agr√≠colas e artesanais [9].

O comerciante e reformador social, S√≠lvio Gesell, ampliou a id√©ia de uma ordem pol√≠tica para uma ‚Äúeconomia de mercado sem capitalismo‚ÄĚ, interpretando como causas da doen√ßa da forma√ß√£o do monop√≥lio o dinheiro e a propriedade da terra. Tinha como ponto de partida a elimina√ß√£o da caracter√≠stica inerente ao dinheiro de ser um instrumento de poder e de especula√ß√£o e, por sua vez, resguardar a propriedade que tem o dinheiro de ser um meio de troca?

Para Gesell, o poder do dinheiro tinha duas causas: a) frente ao trabalho  humano e os bens, o dinheiro possui a vantagem de poder ser temporariamente guardado sem perdas consider√°veis ao seu propriet√°rio, enquanto que os bens acumulados perdem valor ou tem que ser mantidos em bom estado. b) enquanto os bens e a presta√ß√£o de servi√ßos s√£o produzidos para atender necessidades especiais, o dinheiro √© fluente. Assim como um coringa num jogo de baralho, o dinheiro √© um coringa universal, que pode ser utilizado a qualquer momento e em qualquer lugar da economia.

A acumula√ß√£o de dinheiro e a sua alta liquidez outorga ao seu propriet√°rio uma posi√ß√£o de poder: ele pode utiliz√°-lo seja para interromper a circula√ß√£o de compras e vendas ‚Äď produzindo estagna√ß√£o de vendas e desemprego ‚Äď ou ele pode exigir juros dos produtores e  consumidores  como pr√™mio particular para n√£o deixar o dinheiro entesourado ao reinvesti-lo na circula√ß√£o econ√īmica, tendo auferindo da√≠ receitas  e uma divis√£o injusta de riqueza.

Para solucionar a quest√£o do dinheiro, Silvio Gesell imaginou que a acumula√ß√£o ou a reten√ß√£o de dinheiro deveria ser vinculada a custos tais que, neutralizassem as vantagens da liquidez e da acumula√ß√£o. Assim que o dinheiro for onerado por uma taxa de reten√ß√£o, perde sua caracter√≠stica de instrumento de poder e cumpre ent√£o somente seu papel como meio de troca. Sua circula√ß√£o continua, sem interfer√™ncias especulativas, permitindo que a quantidade de dinheiro em circula√ß√£o se ajuste continuamente ao volume dos bens produzidos,  de  modo  que o poder de compra da moeda permane√ßa est√°vel. Em sua obra principal, ‚ÄúDie Nat√ľrliche Wirtschaftsordnung durch Freiland und Freigeld‚ÄĚ (‚ÄúOrdem econ√īmica natural com terra e moeda livres‚ÄĚ), Silvio Gesell exp√Ķe detalhadamente como, com a circula√ß√£o do dinheiro sem empecilhos, a oferta e a procura de capital aos poucos se equilibram, de tal modo que o n√≠vel da taxa de juros caia a quase zero. Assim, o dinheiro se converte em meio de troca de efeito redistributivo neutro. Visto que com taxa de juros m√©dia de praticamente zero a acumula√ß√£o de dinheiro n√£o pode multiplicar-se infinitamente, assim tamb√©m seus detentores n√£o podem exercer coa√ß√£o para o crescimento infinito dos bens de produ√ß√£o. Al√©m disso, Gesell descreveu as possibilidades decorrentes da transfer√™ncia da terra para uso comum e seu aproveitamento privado sob a forma de arrendamento, ou seja: cess√£o do direito leg√≠timo de sucess√£o da terra. Pela transfer√™ncia da terra, ningu√©m poderia ser prejudicado ou privilegiado: ‚Äúa terra pertence a todos sem exce√ß√£o: a negros, √† pele-vermelhas, a amarelos, a brancos‚ÄĚ [10].

Entre os precursores da ‚Äúeconomia de mercado sem capitalismo‚ÄĚ temos Rudolf Steiner, conhecido como o fundador  da Antroposofia, da agricultura biol√≥gico-din√Ęmica e da pedagogia Waldorf. Ele exp√Ķe id√©ias semelhantes as de Gesell nos seus escritos sobre a tr√≠plice divis√£o do organismo social em campos descentralizados da vida jur√≠dica, econ√īmica e cultural. Compara o ‚Äúenvelhecimento do dinheiro‚ÄĚ em circula√ß√£o na economia com a produ√ß√£o e a elimina√ß√£o dos gl√≥bulos sangu√≠neos no organismo humano [11].

Os poderosos escondiam sua ambi√ß√£o pelo dinheiro e pelas riquezas sob a camuflagem religiosa do evangelho dos ricos e sob o v√©u econ√īmico da ideologia de mercado. Falsificaram o evangelho e o princ√≠pio da ordem econ√īmica de mercado para impor os seus interesses de poder. Assim, o evangelho e o princ√≠pio de mercado passaram a ser elementos pouco dignos de cr√©dito. Em conseq√ľ√™ncia, surgiram o materialismo e a economia planificada.
Na Am√©rica Latina, o cristianismo e o capitalismo, como tamb√©m a economia de mercado e o capitalismo, entraram em cena como se fossem g√™meos siameses. Na sua op√ß√£o pelos pobres, os te√≥logos da liberta√ß√£o dissolveram a alian√ßa profana entre a Igreja e a riqueza, passando a concentrar-se no n√ļcleo do evangelho. De forma parecida deve-se superar tamb√©m a alian√ßa entre economia de mercado e capitalismo. Ainda h√° muitas desconfian√ßas em rela√ß√£o √† economia de mercado, pois sua caricatura capitalista √© considerada como se fosse sua pr√≥pria ess√™ncia. At√© hoje, a humanidade nunca conheceu um verdadeiro mercado livre, mas somente a concorr√™ncia monopolista limitada. A possibilidade de superar a forma√ß√£o dos monop√≥lios para chegar √† concorr√™ncia √≠ntegra est√° al√©m do alcance do mercado capitalista falsificado e do falso caminho da economia planificada.

4.  Compatibilidade da Teologia da Liberta√ß√£o e das Reformas agr√°ria e monet√°ria com a Economia da Liberta√ß√£o                                         [T√≥picos]

As obras de Proudhon, Landauer, Oppenheimer, Gesell e Steiner s√£o, ao mesmo tempo, obras preparat√≥rias para se chegar √† op√ß√£o econ√īmica em favor dos pobres. Nos mesmos cristalizam-se duas correntes de problemas, por meio das qual a auto-regula√ß√£o descentralizada da economia de mercado foi deformada no decorrer da hist√≥ria: o monop√≥lio da propriedade privada da terra e do dinheiro produtor de juros. A supera√ß√£o desses dois monop√≥lios poderia estabelecer as bases para uma economia de mercado p√≥s-capitalista, na qual a explora√ß√£o,  a opress√£o e a viol√™ncia dessem lugar √† liberdade, √† justi√ßa e √† paz.

Essas id√©ias iniciais em torno do ‚Äúsocialismo liberal‚ÄĚ (Franz Oppenheimer) foram ignoradas durante as d√©cadas da ditadura nazista, do milagre econ√īmico e da ditadura comunista. Somente a partir de meados dos anos 70 essas id√©ias s√£o redescobertas. Uma avalia√ß√£o cr√≠tica das mesmas e o desenvolvimento posterior, apropriado √† √©poca, ainda est√° para ser feito. Mas existem sinais tanto de car√°ter econ√īmico como de car√°ter religioso que poderiam enquadrar-se melhor √† Teologia da Liberta√ß√£o do que ao Marxismo.

Os socialistas liberais acusam a Igreja pela sua alian√ßa com os poderosos da pol√≠tica e da economia, sem por isso converter-se em ate√≠stas e materialistas. Proudhon j√° havia previsto a futura ‚Äúrevolu√ß√£o filos√≥fica e religiosa‚ÄĚ, que substituiria o evangelho dos ricos pela ‚Äúreligi√£o verdadeira‚ÄĚ [12]. Contudo, ele e os seguidores n√£o encontraram uma s√≠ntese entre a revela√ß√£o divina e  a raz√£o humana. Landauer e Oppenheimer tinham suas ra√≠zes na religi√£o judaica.   Enquanto Landauer, no decorrer de sua vida, tendeu ao misticismo. Oppenheimer procurou realizar sua concep√ß√£o sobre col√īnias no seio do movimento sionista. Gesell e Steiner provinham de fam√≠lias cat√≥licas. Steiner tentou unir, por um lado, a tradi√ß√£o crist√£ com a sabedoria oriental e, por outro lado, com as ci√™ncias naturais modernas. No pensamento de Gesell permaceu latente a tradi√ß√£o judaico-crist√£, sobretudo a do Antigo Testamento, mesmo que ele, √† primeira vista, tenha sido influenciado por Darwin e Nietzsche. Gesell condenou o fato de se ter abusado da religi√£o, da ci√™ncia e da arte, qualificadas como os sentimentos mais sublimes do homem, com o fim de se obter mais poder. Da reforma agr√°ria e monet√°ria, esperava ‚Äúresultados ben√©ficos no campo da sa√ļde f√≠sica e mental, da religi√£o, da educa√ß√£o e da felicidade e da alegria de viver‚ÄĚ [13].

Uma liga√ß√£o mental entre os te√≥logos da liberta√ß√£o e os socialistas liberais quanto √†s propostas de reforma agr√°ria e monet√°ria pode ser alicer√ßada nas afirma√ß√Ķes b√≠blicas sobre o manejo da terra e do dinheiro. Assim, por exemplo, na B√≠blia o homem √© convidado a servir a Deus em vez de prostrar-se diante do Bezerro de Ouro para adorar o Deus da Riqueza. O mandamento ‚Äún√£o roubar√°s‚ÄĚ √© uma determina√ß√£o que n√£o s√≥ quer proteger a propriedade privada, que temos ganho com o suor do rosto, contra o furto, mas tamb√©m trata de nos proteger  da explora√ß√£o por parte de estruturas pecaminosas institucionalizadas. A legisla√ß√£o de Mois√©s √© dirigida contra os privil√©gios decorrentes da ocupa√ß√£o da terra e do uso do dinheiro. Nos Santos Mandamentos, Mois√©s proibiu a venda da terra e a agiotagem. (Lev, 25)

‚ÄúDeus √© o dono da terra‚ÄĚ, diz o salmo 24,1 e n√≥s somos apenas ‚Äúos h√≥spedes desta terra‚ÄĚ. N√£o s√≥ nos latif√ļndios, mas principalmente na propriedade privada da terra, o homem manifesta sua reivindica√ß√£o de dom√≠nio sobre a terra e suas riquezas naturais, sendo invend√°vel e conservada, servindo de base para a exist√™ncia de uma corrente longa de  gera√ß√Ķes  passadas e futuras. injustas Os profetas, principalmente Ezequiel, no cap√≠tulo 18, refor√ßam  a proibi√ß√£o de cobrar juros; proibi√ß√£o que Jesus reafirma nas Bem-aventuran√ßas. Al√©m do Mandamento do Amor aos inimigos. Exige-nos disposi√ß√£o para ‚Äúemprestar, mesmo quando n√£o possamos esperar algo em troca‚ÄĚ Lc 6, 35. Mois√©s tamb√©m proibiu a manipula√ß√£o de pesos e medidas em Deuteron√īmio 25, 13-16. Unidades monet√°rias como o Austral, o Cruzeiro ou o Peso s√£o medidas que devem permanecer invari√°veis como o litro, o metro ou o quilo. A infla√ß√£o √© uma fraude contra o trabalhador, independentemente de que seja 5% na Europa ou 5000% na Am√©rica Latina. Os Santos Padres da Igreja renovaram  repetidamente a proibi√ß√£o da cobran√ßa de juros at√© que este antigo ensinamento e sua explosiva for√ßa social foi se perdendo desde o in√≠cio da Idade Moderna tendo, finalmente, que ceder √†quela teoria de economia capitalista, a qual turbava a vista contra os perigos da auto-multiplica√ß√£o do dinheiro. Certamente n√£o foi uma mera causalidade que o adeus √† proibi√ß√£o da cobran√ßa de juros e o  desencadeamento da ca√ßa capitalista ao dinheiro e √† riqueza foram paralelos √† expans√£o do triunvirato europeu (trono, altar e capital) no al√©m-mar. Com  viol√™ncia brutal, a l√≥gica oportuna racional da eleva√ß√£o dos juros e da utiliza√ß√£o do capital se estendeu sobre todo o globo. Os povos n√£o europeus e suas culturas foram exterminados sem miseric√≥rdia [14]. Durante a marcha da coloniza√ß√£o foi suplantada a sabedoria dos nativos, que se assemelhava √†quela antiga sabedoria que os europeus j√° haviam eliminado antes da sua pr√≥pria religi√£o.

Nas culturas pr√©-colombianas. Os Maias, Astecas e Incas se consideravam  parte da grande ordem entre a natureza e o cosmo. O sentimento de ser um com a sagrada M√£e Terra representava uma barreira contra o com√©rcio e a especula√ß√£o da terra. ‚ÄúA terra era considerada um empr√©stimo invend√°vel do Grande Esp√≠rito a todos os homens;‚ÄĚ a rela√ß√£o dos ind√≠genas com a terra √©  muito semelhante √†quela que o povo b√≠blico de Israel tinha com sua terra ... a terra n√£o deve ser comprada e nem vendida: vive-se dela ... os ind√≠genas nunca consideravam a terra apenas como um meio de produ√ß√£o e muito menos como um objeto vend√°vel e de especula√ß√£o. A terra tamb√©m n√£o existe para que seja dividida.  Para os Guaranis, por exemplo, isto significaria cortar a terra, ferindo-a. Na linguagem dos √≠ndios Xavantes, como em muitos outros idiomas ind√≠genas, n√£o existe uma express√£o que signifique ‚Äúpropriedade‚ÄĚ no sentido em que n√≥s a usamos, isto √©, uma √°rea em duas dimens√Ķes. No idioma Xavante existe somente uma palavra para ‚Äúespa√ßo‚ÄĚ. Para eles a terra √© tridimensional; ela √© a base de todas as culturas, plenas de hist√≥ria, tradi√ß√£o e mitos. Para os ind√≠genas a terra n√£o √© profana; nela fundamenta-se todo o sistema religioso. Terra e religi√£o constituem juntas as pedras angulares da vida dos ind√≠genas [15].

Os nativos j√° suspeitavam, obviamente, da ambival√™ncia que podiam ter os metais preciosos e assim, por exemplo, os Astecas chamavam o ‚Äúouro e a prata: imund√≠cie amarela e branca dos deuses‚ÄĚ [16]. Contudo, a divis√£o do trabalho e a economia monet√°ria ainda n√£o eram desenvolvidas a ponto de a for√ßa social explosiva da cobran√ßa de juros poder penetrar em suas consci√™ncias como acontecera entre os israelitas. Entre os ind√≠genas usava-se como dinheiro frutos de cacau, em vez de moedas.

Uma poesia ind√≠gena chamada ‚ÄúM√£e Terra‚ÄĚ reflete o confronto entre a compreens√£o que os europeus e os ind√≠genas t√™m da natureza:

                         ‚Äú tudo o que fere a terra,
                           fere tamb√©m os filhos da terra,
                           o √≠ndio √© um filho da terra,
                           a terra √© nossa vida e nossa liberdade.
                           Os poderosos escravizam a terra.
                           S√£o estrangeiros, chegam √† noite
                           E roubam da terra tudo o que desejam.
                           Para eles um peda√ßo de terra √© igual ao outro.
                           A terra n√£o √© sua irm√£
                           √Č sua inimiga
                           A destroem e logo fogem.
                           Esquecem-se onde estava o ber√ßo de seus pais
                           E roubam a terra de seus filhos.
                           Sua gan√Ęncia empobrece a terra
                           E eles deixam somente
                           A cansada areia do deserto‚ÄĚ  [17].

Nas culturas antigas a terra era sempre propriedade das comunidades e das  parentelas. Sem d√ļvida nessas culturas tamb√©m havia feudos de poder, motivo pelo qual n√£o devemos glorific√°-las como se fizessem parte de uma √©poca √°urea da humanidade. Os conquistadores espanh√≥is e portugueses se deram ao direito de posse geral de toda a terra e das propriedades; os poucos ind√≠genas sobreviventes e os negros trazidos da √Āfrica foram rebaixados √† categoria de propriedade corporal e escravos. Desta forma, a economia de latif√ļndios tomou tal propor√ß√£o que sobreviveu, at√© mesmo √† emancipa√ß√£o pol√≠tica dos pa√≠ses latino-americanos de suas primeiras pot√™ncias colonizadoras. O latif√ļndio permaneceu sendo a base das estruturas de poder neo-colonialistas.

Em muitos casos os crioulos e mesti√ßos ocuparam o lugar dos senhores feudais estrangeiros que, como elite ocidentalizada, dominam milh√Ķes de homens despojados de seus direitos e defendem seus privil√©gios, valendo-se de brutal viol√™ncia.

‚ÄúBrot f√ľr die Welt‚ÄĚ, institui√ß√£o caritativa alem√£ procura chamar a aten√ß√£o em an√ļncios de jornal, para a injusta reparti√ß√£o da terra em todo o mundo. Segundo um destes an√ļncios, no Peru e na Bol√≠via, pa√≠ses latino-americanos, existem, respectivamente, 75 e 85% de pessoas sem terra. No Paraguai, dos 40   milh√Ķes de hectares utiliz√°veis na agricultura, 36 milh√Ķes s√£o ocupados por latifundi√°rios [18]. No Brasil, existem 12 milh√Ķes de pessoas sem terra e 5,15 milh√Ķes de propriet√°rios; destes 5,15 milh√Ķes, 0,95% s√£o latifundi√°rios com mais de 1.000 hectares, aos quais pertencem 45,5% das terras; 9,5% s√£o propriet√°rios m√©dios que possuem entre 100 e 1.000 hectares, os quais det√©m 34,5% das terras; 10,5% propriet√°rios de terras controlam, portanto, 80% do territ√≥rio agr√≠cola. Os 20% das terras agr√≠colas restantes devem ser repartidos entre 89,5% dos pequenos propriet√°rios com menos de 100 hectares que, em compensa√ß√£o, produzem 85% dos principais produtos aliment√≠cios para toda a popula√ß√£o brasileira. Boa parte dos latif√ļndios ou n√£o s√£o aproveitados para a agricultura ou s√£o utilizados para a planta√ß√£o de produtos destinados √† exporta√ß√£o e para a monocultura destruidora do meio ambiente [19]. A propriedade da terra dos 400 latifundi√°rios mais ricos no Brasil se estende por uma superf√≠cie s√≥ 15% menor que a √°rea total da Gr√£-Bretanha. Muitos latifundi√°rios possuem terras t√£o extensas como Luxemburgo (2.600km); [20] e com seus pistoleiros mandam assassinar a sangue-frio √†queles que, como Chico Mendes, combatem esta injusti√ßa que clama para o c√©u.

Na Guatemala, 2,6% das empresas agr√≠colas est√£o nas m√£os de latifundi√°rios. A eles pertencem, aproximadamente, 65% da terra cultiv√°vel [21]. Tal injusta divis√£o da terra leva, sem d√ļvida,  a conflitos sociais que, necessariamente, desabrocham em viol√™ncia e derramamento de sangue. Em El Salvador, pequeno pa√≠s h√° anos dilacerado pela guerra civil, 0,02% da popula√ß√£o possui 39,5% da terra; outros 1,9% possuem 57,5% da terra; 63 fam√≠lias de latifundi√°rios t√™m √† sua disposi√ß√£o tanta terra como 200.000 fam√≠lias de agricultores [22].

   Nos outros pa√≠ses latino-americanos a distribui√ß√£o de terra apresenta-se em semelhante situa√ß√£o. Segundo Eduardo Galeano, em m√©dia 1,5% dos latifundi√°rios latino-americanos det√©m a metade da terra cultiv√°vel [23]. A conseq√ľ√™ncia imediata da concentra√ß√£o das terras em poucas m√£os √© a expuls√£o e o √™xodo rural dos camponeses para os aglomerados urbanos. Pela aflu√™ncia de milh√Ķes de pessoas pobres e desarraigadas, as grandes cidades, com suas favelas, crescem desmesuradamente. Com a especula√ß√£o, os terrenos das cidades encarecem e mais uma vez os ricos tiram proveito da situa√ß√£o.

O latif√ļndio representa a grande lan√ßa cravada na carne da Am√©rica Latina e a pr√≥pria raiz da polariza√ß√£o extrema entre pobreza e riqueza. N√£o s√£o as torturas e os homic√≠dios, com os quais os poderosos defendem os seus privil√©gios, que primeiramente ferem os direitos humanos, mas s√£o a despropor√ß√£o na ocupa√ß√£o de terras e as institui√ß√Ķes pol√≠ticas por esta legitimadas, que s√£o agress√Ķes estruturais √† dignidade do homem, transtornando a estrutura social, causando doen√ßas nas pessoas e preparando o terreno para a criminalidade e ref√ļgio na droga.

Junto aos latif√ļndios, a d√≠vida externa tem se convertido na segunda forma de depend√™ncia neo-colonialista, que procura eliminar a independ√™ncia dos povos latino-americanos e continuar a conquista. Os juros correntes entre norte e  sul s√£o a continua√ß√£o da explora√ß√£o colonial anterior.

Em 1986, na Confer√™ncia Latino-americana contra a d√≠vida externa em Havana, o l√≠der sindical brasileiro Luis Ign√°cio da Silva (Lula) batizou esta injusti√ßa com um nome pr√≥prio: ele falou em ‚Äú a guerra da d√≠vida externa‚ÄĚ, que o norte combate contra o sul; falou de uma ‚Äúterceira guerra mundial‚ÄĚ regularizada, a qual n√£o √© combatida com bombas, e sim com juros  [24].

Al√©m disso, os governos latino-americanos descarregam os custos  das conseq√ľ√™ncias dessa conquista neocolonial em cima de seus povos oprimidos, na medida em que se financiam com a ajuda de emiss√£o de c√©dulas. Com taxas de infla√ß√£o de 5.000% ou mais se liberta o Cavaleiro Negro do Apocalipse  sobre este continente desolado. As hiper-infla√ß√Ķes s√£o grandes roubos que favorecem aos propriet√°rios de bens de valor (latif√ļndios, im√≥veis urbanos) e desvalorizam as economias, sobretudo da classe m√©dia, arru√≠nam exatamente aqueles grupos, como os lavradores independentes, os artes√£os, industriais e os profissionais liberais, os comerciantes, ou as cooperativas que, por si s√≥ teriam capacidade de formar, por meio de economias pr√≥prias, um capital interno e um desenvolvimento aut√īnomo, independente do capital externo.

As f√≥rmulas pol√≠tico-econ√īmicas do neo-colonialismo, monetarismo e keynesianismo, testadas contra a crise latino-americana, fracassaram todas porque n√£o tocam em nada do privil√©gio dos latifundi√°rios e dos grandes capitais.  At√© mesmo a revolu√ß√£o sandinista da Nicar√°gua s√≥ trouxe desilus√Ķes. N√£o se visualiza sa√≠das para o sofrimento da Am√©rica Latina. N√£o caberia examinar, nesta situa√ß√£o, as obras de Proudhon, Landauer, Oppenheimer, Gesell e Steiner para ver se elas apresentam alguma tentativa de solu√ß√£o, que possa ser desenvolvida no sentido de uma estrat√©gia global, que sirva para solucionar as diferen√ßas entre o norte e o sul?

As propostas para as reformas agr√°ria e monet√°ria atingem exatamente a   raiz crucial dos problemas na Am√©rica Latina. A devolu√ß√£o da terra aos seus habitantes e seu arrendamento posterior, assim como a introdu√ß√£o de uma moeda neutra, livre de juros, poderiam romper as estruturas de poder da conquista neo-colonial e poderiam ser passos no caminho da realiza√ß√£o de direitos humanos elementares: 1) o direito de todos os h√≥spedes deste planeta ao acesso livre e igualit√°rio √† terra. 2) o direito de todos os homens de trocar os produtos do seu trabalho no seio da comunidade humana de acordo e na propor√ß√£o do seu rendimento.

5.  Rela√ß√£o peculiar de Silvio Gesell com a Am√©rica Latina            [T√≥picos]

Dos precursores da alternativa liberal diante do capitalismo e o comunismo mencionados anteriormente, Silvio Gesell tinha uma rela√ß√£o especial com a Am√©rica Latina. Logo depois de aprender a profiss√£o de comerciante em Berlim e depois de trabalhar um ano como correspondente comercial em M√°laga (Espanha), emigrou para a Argentina em 1887, com a idade de 25 anos.  Em  Buenos Aires abriu o seu pr√≥prio neg√≥cio. As turbulentas crises econ√īmicas o levaram a investigar as causas da infla√ß√£o e defla√ß√£o, da estagna√ß√£o das vendas e do desemprego. Com isso, Gesell descobriu as causas do poder monet√°rio e encontrou tamb√©m um caminho para enfraquecer o seu poder. Em 1891/92, ou seja, 400 anos depois do in√≠cio da conquista, surgiram em Buenos Aires suas primeiras publica√ß√Ķes em l√≠ngua alem√£. A estas seguiram, com partes tamb√©m em espanhol, uma grande quantidade de publica√ß√Ķes posteriores, as quais atualmente est√£o sendo lan√ßadas em uma edi√ß√£o completa de 18 volumes [25].

Poder-se-ia, ent√£o, dizer que Buenos Aires se converteu na cidade natal de uma economia da liberta√ß√£o. Naturalmente, Gesell n√£o estava em condi√ß√Ķes de apresentar, ainda, um amplo programa contrastante com os fundamentos ideol√≥gicos econ√īmicos da conquista da Am√©rica pelos ib√©ricos. Em suas obras h√° id√©ias que ainda se embasam no tradicional euro-centrismo, mas que facilitam pensamentos que v√£o al√©m da Europa Moderna.

Numa de suas primeiras obras, ‚ÄúReforma do sistema monet√°rio como ponte para o Estado Social‚ÄĚ de 1891, Gesell supera a dan√ßa europ√©ia em redor do Bezerro de Ouro e a l√≥gica dos juros maximizados e a acumula√ß√£o do capital, que s√£o a base dessa idolatria. A inven√ß√£o do metal precioso como forma de pagamento significava para Gesell a mesma coisa que o Pecado Original, pelo qual o homem ‚Äúconverteu a grandiosa cria√ß√£o em inferno ... o ouro governa o mundo, na terra que j√° n√£o √© um para√≠so‚ÄĚ; o metal precioso como forma de pagamento √© ‚Äú... o pecado original, do qual a humanidade sofre; n√≥s queremos lavar completamente esse pecado original‚ÄĚ. Como alternativa aos metais preciosos que possuem valor de moeda corrente, Gesell prop√īs n√£o s√≥ um papel moeda normal, como o que se tem em toda parte, mas as chamadas c√©dulas banc√°rias oxid√°veis, ou seja, um papel moeda em que cada uma das notas, como tudo na natureza, chegam e passam e no qual a quantidade de notas sejam de tal forma administradas que as diversas unidades monet√°rias (Peso, Austral, Cruzeiro, Quetzal, etc.) se tornam est√°veis. [26]

Enquanto a vis√£o de futuro de Silvio Gesell rompeu as barreiras do pensamento europeu, sua id√©ia geral das origens do capitalismo moderno continuaram sendo euro-c√™ntricas. Em suas pesquisas sobre o influxo de aspectos desconhecidos da economia monet√°ria na ascens√£o e decad√™ncia das culturas, ele alertava para o papel que a moeda exercia na passagem da Idade M√©dia √† Idade Moderna. Gesell atribu√≠a √† falsifica√ß√£o da moeda e √† recondu√ß√£o dos metais preciosos da Am√©rica, o fim da ‚Äúhiberna√ß√£o econ√īmica‚ÄĚ em que a Europa se encontrava desde a queda de Roma, assim como o renascer da divis√£o de trabalho e a cultura renascentista. Mas apesar de recusar em geral os metais preciosos como moeda, compartilhou, no in√≠cio, do preconceito de que a ‚ÄúAm√©rica de Pizarro n√£o transmitiu nenhum costume, uso, institui√ß√£o ou processo de produ√ß√£o, dignos de serem imitados‚ÄĚ. [27]

Em compensa√ß√£o, Gesell n√£o foi t√£o longe como Adam Smith, que qualificou os ind√≠genas como ‚Äúpovos selvagens em estado natural‚ÄĚ, ou como Karl Marx que interpretou a conquista da Am√©rica como a ‚Äúaurora da era de produ√ß√£o capitalista‚ÄĚ a qual, segundo a sua opini√£o, promovia ‚Äúprocessos de transforma√ß√£o hist√≥ricos do modo de produ√ß√£o feudal para o capitalismo e abreviava sua passagem‚ÄĚ [28]. Certamente √© necess√°rio corrigir essas afirma√ß√Ķes euro-c√™ntricas na obra de Gesell, para isso existem pesquisas latino-americanas, como por exemplo, a obra de Eduardo Galeano, que nos ajudam [29].

Quando se intensificaram os conflitos pol√≠ticos entre a Argentina e o Chile, por causa da crise econ√īmica, Silvio Gesell escreveu dois folhetos em espanhol, nos quais apresentou propostas para a estabiliza√ß√£o da conjuntura da √©poca. Com isso pretendia atuar, indiretamente, no sentido de uma rela√ß√£o pac√≠fica entre as duas na√ß√Ķes. Suas recomenda√ß√Ķes para a reforma da emiss√£o de moedas e do controle sobre a quantidade de dinheiro foram aproveitadas por um comerciante e pol√≠tico chamado Ernesto Tornquis e entraram na hist√≥ria econ√īmica da Argentina com o nome de Reforma Tornquiana [30].

No final do s√©culo passado, Silvio Gesell conheceu as obras ‚ÄúFortschritt und Armut‚ÄĚ (progresso e pobreza‚ÄĚ) e ‚ÄúFreihandel end Schutzzoll‚ÄĚ (‚Äúcom√©rcio livre e protecionismo‚ÄĚ) do reformador agr√°rio norte-americano Henry George (1839-1897), que tiveram sobre ele grande influ√™ncia. No final de 1899, depois que voltou para a Europa e se estabeleceu na Su√≠√ßa, unificou as suas propostas de reforma monet√°ria com os conceitos de reforma agr√°ria de Henry George. Sobre este tema escreveu um extenso livro ‚ÄúDie Verwirklichung des Rechts auf den Vollen Arbeitsertrag durch die Geld- und Bodenreform‚ÄĚ (‚Äúa realiza√ß√£o do direito √† utilidade total do trabalho por meio da reforma monet√°ria e agr√°ria‚ÄĚ), no qual Gesell acusava veementemente o abuso da terra como objeto comercial compr√°vel  e como objeto de especula√ß√£o: ‚Äútodo o globo terrestre, que com um v√īo suntuoso gira em torno do sol, √© um √≥rg√£o do homem, de cada um dos homens. Devemos, ent√£o, permitir que alguns homens se apropriem de partes dessa terra, de parte de n√≥s mesmos, como se fossem propriedade exclusiva e excludente, que construam cercas e com c√£es e escravos adestrados nos excluam de algumas partes da terra?‚ÄĚ [31] Gesell considerava a apropria√ß√£o privada da terra como uma agress√£o cruel ao organismo geral da terra e homem. Se baseia na viol√™ncia e s√≥ consegue permanecer de p√© por meio de uma pol√≠tica dirigida pelos interesses dos latifundi√°rios, que instrumentalizam escolas, igrejas, justi√ßa e for√ßas militares para servir  a seus interesses de dom√≠nio e necessitam de √≥rg√£os de seguran√ßa como ‚Äúprote√ß√£o‚ÄĚ contra aqueles que foram privados de seus direitos. E, finalmente, Gesell reconhecia a propriedade privada da terra e no dinheiro produtor de juros os ‚Äúmicr√≥bios sociais e grandes destruidores da paz‚ÄĚ, os quais ‚Äúdividem a fam√≠lia humana em pobres e ricos e impelem os povos para guerras civis nacionais‚ÄĚ [32].

No contexto de sua cr√≠tica ao direito √† terra, Silvio Gesell indignou-se com o roubo de terras cometido pelos europeus na √Āfrica, √Āsia, Austr√°lia e Am√©rica: ‚Äúna Am√©rica do Sul enviaram o General Roca, que posteriormente foi presidente, com um bando de soldados contra os ind√≠genas para os expulsarem dos campos e dos pampas. Mataram a maior parte deles, seq√ľestraram as mulheres e crian√ßas para a capital para servirem de m√£o-de-obra barata e o resto mandaram para o outro lado do rio Negro. Assim, e n√£o de outro modo, surgiram "os santos direitos intoc√°veis‚ÄĚ dos atuais propriet√°rios das maiores e mais f√©rteis terras que existem neste mundo. O lugar de pastagens de milh√Ķes de ovelhas, cavalos e vacas, que √© a √°rea para um povo grande e novo que j√° est√° surgindo, se encontra hoje em dia na m√£o de um pequeno n√ļmero de pessoas [33]. Para superar esta injusti√ßa da privatiza√ß√£o da terra Gesell exigia a devolu√ß√£o de toda a terra para ser transformada em propriedade invend√°vel, bem comum que pertenceria a todos os homens sem exce√ß√£o. As terras destinados ao uso privado s√≥ deveriam ser dadas em arrendamento ou direito de heran√ßa, mas por tempo limitado. Os rendimentos p√ļblicos arrecadados com arrendamento e com a outorga da heran√ßa por tempo limitado deveriam ser dados √†s m√£es, de acordo com o n√ļmero de filhos, como ajuda de sustento para a educa√ß√£o dos filhos.

De 1906 a 1911, Silvio Gesell voltou a viver em Buenos Aires. Durante esse tempo suas id√©ias, j√° escritas em 1898, sobre os entendimentos entre Chile e Argentina, amadureciam para uma id√©ia segundo a qual todas as na√ß√Ķes da terra deveriam reunir-se num ‚Äúorganismo internacional‚ÄĚ. Mesmo que sejam superados os problemas do monop√≥lio da terra e do dinheiro em cada um dos pa√≠ses, poderiam continuar existindo desigualdades econ√īmicas no exterior. Para superar tamb√©m tal tipo de desigualdades e estabilizar o curso de divisas, todas as na√ß√Ķes, num ‚Äúato de irmandade internacional‚ÄĚ, deveriam organizar uma autoridade monet√°ria mundial [34]. Posteriormente, Gesell desenvolveu o conceito de uma ‚Äúassocia√ß√£o internacional da moeda‚ÄĚ (IVA). Enquanto o Fundo Monet√°rio Internacional (FMI) e o Banco Mundial representam os interesses dos poderosos dentro da economia mundial capitalista, a IVA, visando ao mercado mundial p√≥s-capitalista, deveria, paralelamente √†s moedas nacionais, imprimir uma moeda mundial e administr√°-la de tal forma que fosse poss√≠vel estabelecer um equil√≠brio mundial. Ao contr√°rio do d√≥lar, que serve de moeda guia internacional, as c√©dulas do IVA deveriam ser uma moeda neutra, que estivesse acima de qualquer moeda nacional.

Gesell, como cidad√£o cosmopolita, distanciou-se severamente do ‚Äúpensamento perigoso da amplia√ß√£o do campo econ√īmico nacional, em si fechado, atrav√©s de conquistas e invas√Ķes‚ÄĚ [35]. Em vez disso, imaginava um mercado mundial aberto, o qual deveria ser livre tanto dos monop√≥lios capitalistas como das alf√Ęndegas e dos protecionismos comerciais: ‚Äúa fronteira alfandeg√°ria dissolve violentamente o que, naturalmente, deveria unir os povos‚ÄĚ. Em contrapartida, uma reforma agr√°ria e monet√°ria, junto com a elimina√ß√£o do IVA deveria criar o pressuposto para o com√©rcio mundial completamente livre, no qual todos os povos da terra pudessem participar igualmente:  ‚Äú o mercado mundial livre √© o √ļnico que oferece a todos os povos a garantia de que eles podem viver a sua maneira sem serem molestados e podem desenvolver-se plenamente dentro de uma competi√ß√£o pacifica. Idioma, religi√£o, tradi√ß√Ķes hist√≥ricas, em resumo, tudo o que ‚Äúparece‚ÄĚ sagrado a um povo, encontra a prote√ß√£o da humanidade contra qualquer tipo de viola√ß√£o estrangeira somente no com√©rcio livre‚ÄĚ. Gesell via nesse tipo de com√©rcio livre mundial o caminho para o respeito aos direitos humanos, para o nascimento da ‚Äúalian√ßa da humanidade‚ÄĚ e para a paz mundial [36].

Pouco tempo antes de Silvio Gesell ter visitado, pela √ļltima vez, a Argentina (1924-1925), havia surgido ali um ‚ÄúPartido Liberal Georgista‚ÄĚ, partido que lutava atrav√©s da revista ‚ÄúEl Liberal Georgista‚ÄĚ, para que se cumprisse o programa de reforma agr√°ria proposto por Henry George. Numa revista alem√£ informou positivamente sobre esse partido, mas com a indica√ß√£o restritiva de que a reforma agr√°ria isoladamente n√£o √© suficiente para solucionar tamb√©m o problema dos juros e nem tampouco das d√≠vidas. Ao mesmo tempo lembrou um presidente argentino Sarmiento, que em 1830 havia tentado proibir, constitucionalmente, a venda de terras p√ļblicas para dar a terra aos camponeses, mesmo que s√≥ em arrendamento. ‚ÄúPor isso, Sarmiento foi derrotado. Novamente uma prova de que as pessoas decentes n√£o t√™m o que procurar nos governos. Seu lugar √© na oposi√ß√£o e, logo, na revolu√ß√£o. A pol√≠tica partid√°ria s√≥ atrai os gatunos‚ÄĚ [37].

Depois da morte de Gesell alguns imigrantes alem√£es fundaram, em Buenos Aires, uma ‚ÄúFedera√ß√£o Fisiocr√°tica Argentina‚ÄĚ para propagar as id√©ias das reformas agr√°ria e monet√°ria. No M√©xico surgiu uma organiza√ß√£o semelhante: ‚ÄúEconomia Livre‚ÄĚ. O filho de Gesell, Ernesto, publicou em Buenos Aires, entre 1936-1945 uma tradu√ß√£o espanhola do livro ‚ÄúNat√ľrlichen Wirtschaftsordnung‚ÄĚ (El ordem econ√īmico natural), mas esta obra caiu no esquecimento depois da Segunda Guerra Mundial. Assim, o nome Gesell s√≥ se conservou no balne√°rio ‚ÄúVilla Gesell‚ÄĚ, fundado pelo seu outro filho, Carlos. Apenas o economista argentino Oreste Popescu lembrou mais uma vez, em 1963, a obra de Gesell [38]. Em contrapartida, tamb√©m seus seguidores alem√£es e su√≠√ßos perderam de vista, durante um longo per√≠odo, os pa√≠ses do terceiro mundo. Somente Herbert M√ľller recordou a injusta rela√ß√£o de posse da terra no terceiro mundo e criticou os interesses capitalistas subjacentes √† ‚ÄúAjuda para o desenvolvimento‚ÄĚ. Somente a crise originada pela d√≠vida gerou novamente um maior interesse pelo destino dos homens que sofrem no sul [39].

6.  Depois de 500 anos de desenvolvimento e subdesenvolvimento: uni√£o do norte e do sul em equil√≠brio mundial                                            [T√≥picos]

Ao longo de sua vida, Gesell se transformou de europeu em peregrino entre dois mundos: o norte industrializado e o sul subdesenvolvido. Seu ponto de partida para uma “economia de mercado livre e justa, sem capitalismo, nasceu na América Latina. Em certo sentido, Gesell foi a personificação do vínculo entre o norte e o sul, da mesma forma que a reforma agrária e monetária poderiam chegar a ser um meio para a união destes dois pólos. Se os vestígios euro-centristas fossem corrigidos em seu modelo de reforma e se as possibilidades de crítica à civilização capitalista e aos 500 anos de conquista, contidas nesse modelo, fossem ampliadas, então Gesell e sua obra não apareceriam realmente como uma semente de união de todos os cinco continentes numa sociedade mundial pós-capitalista?

Proudhon j√° havia falado da usura cancerosa dos juros. As riquezas crescentes s√£o como um tumor que se formou no hemisf√©rio norte. E este tumor espalhou met√°stases em formas de estruturas coloniais e neo-colonias sobre o hemisf√©rio sul. Um meio de cura efetiva do organismo geral homem-terra poderia ser a devolu√ß√£o da terra √† coletividade numa distribui√ß√£o do rendimento do solo a pessoas que criam filhos, assim como a redu√ß√£o a zero das taxas de juros. Este poderia ser um caminho para a ‚Äúdomestica√ß√£o do mercado e do capital tanto no norte industrializado como no sul subdesenvolvido‚ÄĚ [40], isto √© um caminho para o enfraquecimento do poder ‚Äúdos reis e comerciantes da terra‚ÄĚ (Apoc 18,9-11) nos bancos e empresas multinacionais, no FMI e no Banco Mundial, nos governos e no Pent√°gono: um caminho que a Teologia da Liberta√ß√£o e a Economia Libertadora, com as for√ßas unidas da f√© e da raz√£o podem trilhar para que ‚Äútudo seja renovado‚ÄĚ.

Não se pode apagar 500 anos de conquista. Nem a Europa, nem tampouco os dois terços do mundo podem ter reconstituídas as suas formas anteriores a 1492. Seria absurda também a idéia de que o sul empreendesse uma caça de recuperação em direção ao norte. Seria bem mais necessária a tentativa de: 1) evitar um maior alargamento do abismo existente entre o norte e sul; 2) conduzir o desenvolvimento do norte e o subdesenvolvimento do sul para um equilíbrio novo e estável das culturas e economias dos povos. A reforma agrária e monetária seria, de certo modo, uma terapia de ajustamento, ajudando o organismo homem-terra a se auto-curar lentamente das milhares de estruturas pecaminosas.

Disto resulta para a vida cultural, a id√©ia de uma ‚Äěcoaliz√£o de culturas‚Äú (Claude Levi-Strauss, [41]) e para a vida econ√īmica uma nova compreens√£o do desenvolvimento. Encontro de culturas n√£o significa mais a auto-supervaloriza√ß√£o euro-c√™ntrica do cristianismo enriquecido e deformado, nem uma opress√£o dos outros tipos de religi√£o, mas sim a compreens√£o de que todas as religi√Ķes da terra, enfim, s√£o formas complementares de express√£o da venera√ß√£o da √ļnica divindade. Desenvolvimento n√£o significa mais acumula√ß√£o de rendimentos red√°veis (rendimentos do arrendamento, da terra, juros, rendimentos dos monop√≥lios, lucros de especula√ß√Ķes) e o seu investimento em grandes  e lucrativas tecnologias destruidoras do meio-ambiente, mas significa sim uma divis√£o mais ampla e mais justa da renda de acordo com rendimento e  investimento descentralizado de economias conseguidas por conta pr√≥pria, em tecnologias adaptadas ao homem e √† natureza. Esta no√ß√£o de desenvolvimento inclui o desenvolvimento pr√≥prio das economias particulares dos povos e sua associa√ß√£o volunt√°ria num mercado livre mundial: Deixa para traz, portanto, os conceitos de desenvolvimento das teorias de moderniza√ß√£o e depend√™ncia.


Notas:                                                                                                                              [T√≥picos]

1. √Ėkumenisches Regionalforum Oldenburg (ed.): Ninive-Information zum Konziliaren Prozess n. 3/1991.
2. Gutierréz, Gustavo: Wenn wir Indianer wären, in: E. Schillerbecks (ed.): Mystik und Politik. Theologie im Ringen du Gesellschaft. Maguncia, 1988, p.32. Todorov, Tzvetan: Die Eroberung Amerikas. Das Problem der Anderen. Frankfurt, 1985.p. 160ss.
3. Sobre a Teologia da Liberta√ß√£o conf. Greinacher, Norbert: Die Kirche der Armen ‚Äď Zur Theologie der Befreiung. Munique, 1980/85 e do mesmo autor: Der Schrei nach Gerechtigkeit ‚Äď Elemente einer prophetischen politischen Theologie. Munique, 1986.
4. Sobre isso comparar com Rottl√§nder, Peter: 8ed.9 Theologie der Befreiung und Marxismus: M√ľnster, 1987 ( este livro cont√©n artigos de Clodovis Boff, Giulio Girardi, Fernando Castilllo, Ignacio Ellacuria, Gustavo Gutierr√©z e outros).
5. Proudhon, Pierre Joseph: Was ist Eigentum? (1840), Berlim (1986) e Graz (1071), p.126.
6. Proudhon: ide. p.208ss. e 227.
7. Proudhon: idem p. 71-198 assim como, do mesmo autor: Bekentnisse eines Revolutionärs (1849). Reinbeck. Hamburgo 1969. p. 89-113.
8. Landauer, Gustav: Aufruf zum Sozialismus (1911). 2 Ed. Frankfurt, 1967, p. 78ss. 92 -109.
9. Oppenheimer, Franz: Die soziale Frage du der Sozialismus. (1912-1925), do mesmo autor: Der Ausweg (1918). Weder Kapitalismus noch Kommunismus. Jena, 1932. Weder so noch so ‚Äď Der dritte Weg. Potsdam, 1933.
10. Gesell, Silvio: Die Nat√ľrliche Wirtschaftsordnung durch Freiland und Freigeld. 1916, em: Gesammelte Werke. Tomo 11 , L√ľtjenburg, 1991. Conf. Internationale Vereinigung f√ľr Nat√ľrliche Wirtschaftsordnung INWO (Aut.): Gerechtes Geld ‚Äď Gerechte Welt. Auswege aus Wachstumszwang und Schuldenkatastrophe. 100 Jahre Gedanken zu einer nat√ľrlichen Wirtschaftsordnung, L√ľtjenburg, 1992.
11. Steiner, Rudolf: Kernpunkte der Sozialen Fragen (1917). Dornach,1961, do mesmo autor: Zur Dreigliederung des sozialen Organismus. Stuttgart, 1972. Sobre a relação entre Gesell e Steiner conf.: Werner Onken: Silvio Gesells Persönlichkeit und Werk, em: Fragen der Freiheit n. 202 (1990) p.4-36.
12. Proudhon, Pierre Joseph: Manifest des Peuples, em: Ausgewählte Werke, Tomo II, Aalen, 1973, p.165. Bekenntnisse eines Revolutionärs, p. 94-102 e também: Philosophie der Staatsökonomie, Tomo I, Aalen, 1966, p.383-384.
13. Gesell, Silvio: Die Nat√ľrliche‚Ķ p. 67-84.
14. Strosetzki, Christoph: Der Griff nach der Neuen Welt ‚Äď Der Untergang der Indianischen Kulturen im Spiegel zeitgen√∂ssischer Texte, Frankfurt, 1991. Horst Goldstein: Die andauernde conquista ‚Äď lateinamerikanische Perspektiven, em: Klaus Hagedorn: Anpassung oder Widerstand? Oskar Romero und dem gekreuzigten Volk von El Salvador zum Gedenken, Oldenburg, 1991, p.35.
15. Souza Barros: Marcelo de e Cararias, J.L. Teologia da Terra. Petrópolis, 1988, p.78-80.
16. Helfritz, Hans: Amerika-Inka, Maya und Azteken. Viena 1971, p.93 e Nigel Davies: Die Azteken. Renbeck, Hamburgo, 1989, p.406.
17. Miseror ‚Äď Arbeitshefte: Guatemala im Brennpunkt. Aquisgr√°n,1992 p. 47. Sobre a compreens√£o dos ind√≠genas norte-americanos, conf.: ‚ÄúA carta do √≠ndio‚ÄĚ, principalmente ‚ÄúN√≥s somos uma parte da terra‚ÄĚ.
18. Peri√≥dico de informa√ß√Ķes do Terceiro Mundo, n.172 (1991) p.12.
19. Ganora, Dieter: Zucker, Brot, Peitsche ‚Äď Die Landfrage in Brasilien, Mettingen, 1988, p16.
20. Geurge, Susan: Sie sterben an unserem Geld. Reinbeck, Hamburgo, 1988, p. 198 e Goedeler, Carl em: Tagesspiegel 23.03.1989.
21. Miseror ‚Äď Arbeitshefte: Guatemala... p.60.
22. Peri√≥dico do Terceiro Mundo, n.150 (1988) p.47. Hagedorn, Klaus: El Salvador ‚Äď etwas mehr als ein Steckbrief, em: Anpassung oder Widerstand? P.35.
23. Galeano, Eduardo: Die offenen Adern Lateinamerikas. Wuppertal,1991, p.145, (original em espanhol: Las venas abiertas de Am√©rica Latina). Conf: tamb√©m o artigo ‚ÄúBodenreform‚ÄĚ em Handw√∂rterbuch der Sozialwissenschaften, Tomo II, Gotinga, 1959, p.336-355, principalmente p.350, Feder, Ernst. Agrarstrukturen und Unterentwicklung in Lateinamerika. Frankfurt, 1973.
24. Silva, Luis I. Lula: Citado na revista ‚ÄěContraste revista da auto-administra√ß√£o, n.48 (1988).
25. Gesell, Silvio: Gesammelte Werke. 18 Tomos. Fachverlag f√ľr Sozial√∂konomie. A.A. 1320, D- 24319 L√ľtjenburg. Alemanha. Entre 1988-1992 aparecem 13 Tomos. Os Tomos 14-18 ser√£o editados entre 1993-1995.
26. Gesell, Silvio: Die Reformation im M√ľnzwesen als Br√ľcke zum sozialen Staat. Gesammelte Werke, tomo 1, p.32-37 p. 51ss.
27. Gesell, Silvio: Die argentinische Geldwirtschaft und ihre Lehren. Gesammelte… tomo 2, p.286. Zur monetären Geschichtsinterpretation conf. Die Rolle des Geldes in den Geschicken Völker, em Gesammelte… tomo 8, p.62 assim como sua obra mais importante no tomo 11, p.212-233.
28. Smith, Adam: Der Wohlstand der Nationen, Munique, 1974, p.468. K. Marx: Das Kapital, tomo 1 em Marx-Engels-Werke tomo23, Berlin Oeste,1969, p.770. Numa outra passagem Marx justificou a miss√£o hist√≥rica da Inglaterra na √ćndia: ‚Äúuma destrutiva e uma renovadora ‚Äď a destrui√ß√£o da ordem antiga da sociedade asi√°tica e a forma√ß√£o dos fundamentos materiais de um ordem ocidental da sociedade da asia√°tica. (Marx-Engels-Werke, tomo 9, p. 221).
29. Galeano, Eduardo: Na obra j√° citada, principalmente o cap√≠tulo ‚ÄúFebre do ouro, febre da prata‚ÄĚ √© uma confirma√ß√£o da hip√≥tese de Gesell que o dinheiro te um determinado influxo no curso da hist√≥ria. Conf.: Rottl√§nder, Peter. Die Eroberung Amerikas und wir in Europa. Aquisgr√°n, 1992.
30. Gesell, Silvio: El sistema monet√°rio argetino. Buenos Aires, 1983. La raz√≥n econ√≥moca del desacuerdo chileo-argentino, Buenos Aires, 1988, publicado tb. sob o t√≠tulo ‚Äúla cuestion monet√°ria argentina‚ÄĚ), Conf. Gesell: Die argentinische Geldwirtschaft...p. 283.
31. Gesell, Silvio: Die Verwirklichung des Rechts auf den vollen Arbeitsertrag durch die Geld und Bodenreform. Em: Gesammelte…. Tomo 4, p.81 e tomo11, p.101.
32. Gesell, Silvio: Die nat√ľrliche‚Ķ.. tomo 11, p. 25
33. idem, p.103-104.
34. Gesell, Silvio: La plétora monetária de 1909 y la anemia monetária de 1898, Buenos Aires, 1909, em Gesammelte... tomo 5, p. 235-245.
35. Gesell, Silvio: Das Reichsw√§hrungsamt. Gesammelte‚Ķ. tomo 12, Rehbr√ľcke, Potsdam, 1920, p. 9.
36. Gesell, Silvio: Internationale Valuta Assoziation. Gesammelte‚Ķ tomo 12, Sontra, 1920, p.6, assim como propostas alem√£s para a nova alian√ßa entre os povos e para a revis√£o do Tratado de Versailles, em Gesammelte.... tomo 13 Wuppertal, 1921 p. 4-7. O economista nacional ingl√™s John Mainard Keynes tomou elementos do conceito IVA de Gesell para seu plano Bancor, que infelizmente n√£o conseguiu se impor contra os interesse capitalistas dos Estados Unidos na Confer√™ncia Monet√°ria Mundial de 1944, conf. Gottschalk, Hugo: Keynes-Plan 1944 und Silvio Gesell IVA-Plan-Grundlagen einer Europ√§ischen W√§hrungsordnung. Fragen der Freiheit, n.206, 1990, p.35 ss. O brasileiro Santiago Fernandes que participou da Confer√™ncia de Breton Woods vem apresentando muitas publica√ß√Ķes em portugu√™s nas quais aparecem claramente as diferen√ßas entre o IVA e o Bancor e entre o FMI e o Banco Mundial: Ouro - a rel√≠quia b√°rbara. Rio de Janeiro, S√£o Paulo, Lisboa, 1967. A ilegitimidade da d√≠vida externa do Brasil e o Terceiro Mundo, Rio de Janeiro: Editorial N√≥rdica, 1985, A liberta√ß√£o econ√īmica do mundo pelo esquecido Plano Keynes, Rio de Janeiro, Ed. N√≥rdica, 1991.
37. Gesell, Silvio: Die Freilandpraxis in Argentinien, em: Die Freiwirtschaft, 7. ano, n.8, 1926, p.152, em 1993 sair√° o tomo 15 do mesmo autor: Die Henry-George-Partei in Argentinien ‚Äď Partido Liberal Georgista, em: Der neue Kurs, n. 13,,1923, assim como: Die argentinischen Bodenreformer und wir, em: Der neue Kurs n. 38, 1923. Ambos ser√£o editados em 1993 no tomo 14.
38. Gesell, Silvio: El ordem economica natural por libremoeda e libretierra, B Aires, 1936-1945. Federaci√≥n Fisiocr√°tica Argentina (ed.). Libretierra y libremoeda, B. Aires, 1934. Noussa, Louis: Revoluci√≥n monet√°ria. San Juan (Argentina), 1935. Popescu, Orestes: Ensayos de doctrinas economicas argentinas. Belgrado, Echeverr√≠a, Gesell. La Plata: Ediciones economicas, 1953. Em Porto Alegre (Brasi) apareceu em 1948 uma revista ‚ÄúO futuro org√£o de difus√£o da economia natural‚ÄĚ.
39. M√ľller, Herbert: Die √∂konomischen, sozialen und politischen Hintergr√ľnde der westlichen Hilfe f√ľr die unterentwickelten L√§nder, Hamburgo, 1961 (nr. especial de ‚ÄěInformationen f√ľr Kultur, Wirtschaft und Politik‚Äú, n. 8, 1961, do mesmo autor: Das ungel√∂ste Bodenproblem als St√∂rungsfaktor in der Sozial- und Wirtschaftsordnung. Fragen der Freiheit, n. 80, 1969, p. 9-32. Lindner, Ekkehard: Afrika ist krank. Es lebe Afrika! Zeitschrift f√ľr Sozial√∂konomie 66 , 1985, p.8-22. F√ľhrer, Hans-Joachim: Wie l√§sst sich die Befreiungstheologie der marxistischen Klammerung entrei√üen? Internationale Vereinigung f√ľr Nat√ľrliche Wirtschaftsordnung INWO, ed. 125. Geburtstag von Silvio Gesell ‚Äď Vortr√§ge der Tagung in St. Vith, 1988, Konstanz, 1988 (pode ser pedido na INWO: www.inwo.de) Helmut Creutz: Die Dritte Welt wird immer √§rmer! Zeitschrift f√ľr Sozial√∂konomie 86, 1990, p. 3-20. Friedl√§nder, Thomas: Die Verschuldung der Dritten Welt ‚Äď unsere gemeinsame Bedrohung und Herausforderung, Zeitschrift Sozial√∂konomie 92, 1992, p.16-21. Em espanhol existem os dois seguintes trabalhos editados pela Associa√ß√£o Internacional para uma Ordem Economica Natural: ‚ÄěLa economia del futuro memorandum pra cientificoa em economia, Mexico, 1988. Knauer, Peter: Quien paga la venta a del comodin? Cuaderno de reflexi√≥n teol√≥gica, n.13, Universidad Iberoamericana, M√©xico, D, F, 1989.
40. Ehrke, Michael: Jenseits der Strategien ‚Äď Lateinamerika als Verlierer der Weltwirtschaft. Lateinamerika-Jahrbuch, 13, Hamburgo, 1989, p.41.
41. Levi-Strauss, Claude: Strukturelle Anthropologie II, citado por Ramminger, Michael: Option f√ľr die Armen ‚Äď Option f√ľr die Anderen, em: Christliche Initiative Romero, Werkmappe 1492-1992, 500 Jahre Eroberung. Evangelisation und Widerstand Lateinamerikas, M√ľnster,1991.
                                                                                                                                          
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